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Camping Liquidificado

Desde sempre nossa família frequenta a praia de Itapema/SC. Começamos como campistas, tenho memórias maravilhosas dessa época. Muitas delas de cozinha e de liquidificador. Calma que eu já te explico.

Desde a chegada com a carretinha e o montar da barraca, a organização das coisas tinha que ser muito bem ajeitada e dentro de uma lógica quase matemática. Eram 5 pessoas passando 30 dias naquele espaço restrito. Pensa na gincana!

Uma coisa que até hoje eu não entendo é por quê a gente tinha que levar comida e suprimentos de Caçador para passar todo o período na praia, como se não tivesse onde comprar as coisas por lá. Talvez fosse uma questão de preço, não sei.

Muita coisa acontecia…

Vizinhos que viraram amigos e que encontrávamos ano após ano.

As comidinhas incríveis preparadas no fogãozinho de 2 bocas.

A louça que precisava ser lavada no espaço comunitário.

O banheiro compartilhado.

Acho que ser campista é muito legal para o desenvolvimento humano, para a socialização. Espaços compartilhados nos ajudam a colocar os pés na vida real.  Recursos limitados nos ajudam a entender que a nossa vontade jamais pode sobressair a vontade da comunidade.

O pai comprou um terreno longe da praia. Duas quadras de distância (naquela época isso era muito distante), num banhado cuja rua… bem, não existia rua, era uma lama de passagem.

Ele construiu com as próprias mãos e, claro, mãos de ajudantes, uma linda casa de madeira reutilizada, herdada de família. Era uma casa com 3 quartos, 2 banheiros e uma área externa que contava com quarto, banheiro, churrasqueira e garagem.

Tínhamos gramado com pomar, canteiros de flores na frente e um espaço verde muito útil, com chuveirão e varal atrás. No muro, ele plantou trepadeiras. Éramos a única casa de madeira da rua, mas, certamente, a mais feliz pela conquista. Todos os familiares passavam férias conosco. A casa era muito fofa, simples e hospitaleira.

Depois de muitos anos lavando as paredes de madeira do lado de fora da casa por causa de vandalismo, horas e mais horas de corte da grama, superação de seguidos roubos, decidimos permutar o terreno por um apartamento. Em incríveis 10 meses depois, estávamos proprietários de um novo lar-doce-lar, em cima do nosso banhado.

É aqui que minha vida de cozinheira aparece. Desde que passamos a lavar a louça vendo o mar, assumi o fogão da casa. São 17 anos replicando receitas daquela cozinha de fogão de duas bocas. E hoje me veio à memória uma receita super coringa que alimenta exércitos famintos com baixo custo: é a torta de liquidificador da minha mãe. Que linda memória eu fui resgatar.

Essa torta eu faço muitas vezes por ano, quase sempre variando o recheio – que sempre acompanha o que tem na geladeira. Vou te contar como faço:

Comece pelo recheio, abra a geladeira e veja o que tem:

  • tomate | cebola | vagem | cenoura | brócolis | abobrinha | chuchu | milho | ervilha | aspargo | palmito | pimentões | alho poró – pode colocar todos os legumes que tiver. Você pode brincar de chef e fazer tortas temáticas por cor por exemplo! Usar somente legumes verdes, todos amarelos, verde e amarelo do Brasil… todos em tons laranja… tudo junto e misturado!
  • presunto | peito de peru | atum | sardinha | salsicha – escolha um desses, ou nenhum! Raramente coloco proteína. Se for colocar atum ou sardinha, tire todo líquido deles, tá? Se for colocar frango desfiado, faça um refogadinho dele a parte bem sequinho, sem molho.
  • tempero verde | manjerona | orégano | nós moscada | pimenta do reino – use a melhor combinação de temperos ao seu paladar
  • sal
  • queijo ralado

Pica, pica, pica… bem pequenininho e caprichado! Reserva, não precisa pré-cozinhar antes, vai tudo pro forno e lá mágica acontece. Por isso tem que estar bem miudinho. A quantidade de legumes é a sua forma ou refratário que vai determinar. Precisa preencher todo fundo e ir até metade da forma. Não precisa colocar óleo porque teremos óleo na massa. Coloque sal em cima do recheio, os verdinhos (tempero verde, manjerona, orégano… o que você quiser), raspe a nós moscada, um pouco de pimenta do reino. Agora você coloca o queijo ralado e mexe tudo dentro da forma mesmo. Atenção pra esse sal… você vai colocar no recheio, irá na massa e ainda tem o queijo ralado, por isso faça tudo com cautela.

Agora vamos pra massa, pegue o liquidificador ou coloque tudo numa bacia e use o mixer, funciona muito bem!

  • 1 xic de óleo
  • 3 ovos inteiros
  • 2 xic de leite
  • 3 xic de trigo
  • 1 colher de sopa de fermento em pó
  • Sal

Bate, bate, bate… prova o sal. Cuidado com esse sal! Coloca essa massa no refratário, faz um mexe/mexe para que tudo se converse e tenha massa + recheio em todos os cantinhos da forma.

O forno já deverá estar pré-aquecido, então coloque essa maravilha por pelo menos 45 minutos a 180 graus e vá monitorando. O ponto certo é quando ficar douradinho em cima. A torta é úmida, então se você buscar o ponto de assado usando o palitinho de dente ou a faca, não vai funcionar.

Eu gosto tanto dessa receita que sirvo como refeição principal junto de uma salada bem colorida, de lanche no meio da tarde e confesso… como de café da manhã. Ela fica ótima congelada, corte em quadrados que sirvam 1 pessoa, passe papel film e freezer. Assim, quando você tiver fominha fora de hora, basta tirar uma porção e coloca no micro-ondas.

Bora fazer? Me conta como ficou a sua versão! E mande fotos!

Nessa última versão, deu tudo errado… e ficou incrivelmente delicioso. Errei a mão na massa porque não li a receita e ficou muito leve, quase parecendo um souflê…. então não tenha medo… se errar dá certo!

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Memórias de colecionadora

Quem já teve alguma coleção na vida tende a ser melhor planejador do que quem nunca colecionou nada.

A única coleção que eu tive na vida foi de papel de cartas. Lembro de ter tudo catalogado e separado por tipo: com e sem envelope, temático, com cheiro. Confesso que nem era minha praia, eu curtia mais era o movimento das relações sociais em torno das trocas.

As permutas eram muito bem pensadas: um com cheiro por outro de cheiro, senão tinha que rolar um papelzinho a mais pra compensar a troca por um papel especial.

Em algum momento, aqueles papéis deixaram de ser importantes e foram doados. Gostaria de saber se ainda estão guardados com alguém ou foram doados novamente; se viraram peça de colecionador gente-grande e se tornaram valiosos ou se foram para o lixo, como algo sem valor.

Esses dias eu vi um valor especial nesses papéis, um sentimento diferente do que eu sentia na época de menina, lá em Caçador. Acho que quando a gente começa a fazer as coisas que realmente ama, nossa percepção fica mais sensível para as coisas importantes da vida. É como se o tempo todo estivéssemos atentos aos sinais. O sinal, dessa vez, veio das minhas pilhas de potinhos, na cozinha.

Eu, que depois de adulta nunca fui de acumular nada e sempre me vi como a rainha da doação, de repente, me vi como a rainha dos potinhos, dos temperos, dos sais. Parada na cozinha, olhei para as prateleiras e estava tudo ali, aos montes. Fiquei feliz por ver coisas sendo acumuladas (ou colecionadas) e sendo usadas, todas com muito valor.

Começou com a mania de potinhos. Potinhos de porcelana, vidro, cerâmica, fibra de bambu, plástico; potinho pequeno, médio, grande, potinho pra patê, potinho pra remédios, pra provar a comidinha que está saindo do fogão, potinho pra comer ou potinho só pra ficar olhando, servindo de enfeite.

Cheguei a trazer 42 potinhos como bagagem de mão quando fui ao Marrocos. Eles sobreviveram a 15 dias de trip até chegarem ao seu novo lar-doce-lar. Muitos foram dados como presente, mas a maioria são meus e os uso, todos. Aqui em casa quase não tem prato, a gente come nos potinhos ou cumbucas.

Outra coleção é de sal. Senti-me criança na Disney quando descobri a variedade de sais à venda no mundo e seus diferentes usos e características. Deveria existir uma faculdade sobre o tema, eu me matricularia.

Também virei a maníaca dos temperos, de dois tipos: os in natura – que cultivo ou compro fresco, e os que vendem a granel (ou em potinhos). Ah, os potinhos…

Tenho 4 cestas de temperos na minha bancada de apoio, todos bem identificados. Assim como os potinhos, que estão sempre muito bem organizados. Assim como os papéis de carta, sempre muito bem distribuídos por sessões, cores, importância, cheiro, emoções e sensações que me causavam.

Eu, que tenho a culinária afetiva como propósito de vida, de repente vi nos meus antigos papéis de carta um bom exemplo de afetividade. Tudo o que nos afetou de forma muito gostosa e positiva no passado fica marcado na memória. E essas memórias sempre poderão ser usadas novamente.

São memórias afetivas presentes em nós para nos ajudar a planejar melhor, a organizar potinhos nas prateleiras, temperos no armário ou, simplesmente, para dar mais sabor à vida.

A receita é sempre estar de coração aberto e atenta aos sinais. Quer tempero melhor para a vida do que potinhos com memórias, bem organizados, acessíveis e sendo abertos sempre que a gente quiser?

 

Com uma lojinha dessas bem na sua cara, a cada meio passo… você também não ficaria louco para montar uma coleção de potinhos???

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Batata Mágica

O que acontece quando você espreme uma batata? Ora, uma batata é só uma batata e quando você a espreme ela pode virar purê, recheio, massa. Isso é o que acontece com a batata, mas o que acontece com você quando você espreme uma batata?

Uma batata espremida criou efeitos e resultados inesperados para mim e para todas as batatas que fossem cruzar o meu caminho dali pra frente. Isso aconteceu em um curso de massas frescas, numa noite qualquer de meio de semana.

Poderia ser apenas mais um dos cursos entre tantos outros que eu vinha fazendo no meu ano sabático. Aliás, além de cozinheira, posso me chamar de curseira profissional – nunca fiz tantos cursos num período tão curto de tempo. Nunca investi tanto em mim e nas coisas que me dão prazer.

Curso de barista, curso de aquarela, curso de costura, alguns cursos sem a mínima chance de continuidade (porque eram só testes mesmo, e eu descobri que não sou boa em muitas coisas), curso de fotografia de comida, curso de marketing em rede social, vários cursos de gastronomia, curso de chef, curso de cozinheira, curso de culinária plant-based e, finalmente, o curso onde a batata se tornou protagonista – o curso de massas frescas.
Uma batata sozinha é somente uma batata, mas quando ela encontra a farinha e se junta com o ovo, isso é quase um milagre. Foi esse o milagre que aconteceu depois da batata espremida. Eu comi aquele nhoque do curso como se fosse a última refeição da minha vida: se eu morresse ali, a sensação seria de morte com dever cumprido.

Naquela mesma noite aprendi uma receita de um molho de linguiça com bacon, que usava ervas frescas. Quase chorei quando provei. E foi nesse momento, depois do nhoque com este molho, daquela vibração e explosão de sabores dentro de mim que eu me lembrei de uma vida inteira. Uma vida inteira que eu não vivi. Era como se eu estivesse em débito com a vida, vivendo propósitos que não eram meus, fazendo coisas que não faziam sentido e atendendo a pessoas que não importavam.
Fazer nhoque é algo demorado, cheio de truques. Mas se alguém ama servir, o faz sempre com carinho. E eu tenho ótimas memórias dentro de mim sobre servir com carinho, memórias que vem à tona quando eu amasso batatas, quando afundo a mão no saco de farinha, enquanto toco uma massa.

A batata amassada e aquele molho resgataram em mim a necessidade de voltar a atividade de viver, para replicar as receitas que aprendi ao longo da vida. E essa do nhoque com molho de linguiça e bacon eu te ensino agora!

Nhoque para 4 pessoas:
700g de batata asterix, aquela de casca rosa, sabe?
300g de farinha de trigo, bem pouco. Você vai usar o quanto baste para conseguir fazer rolinhos sem grudar na mesa ou na mão. Não leve essa medida à risca.
1 ovo
80g de queijo parmesão ralado
Noz moscada e sal a gosto.

Molho, para essas mesmas pessoinhas:

500g de linguiça suína fresca. Eu estou usando linguiça campeira… uma delícia.
200g de bacon
Alho e cebola para o refogadinho (pouco)
500ml de molho de tomate caseiro – outro dia te ensino como fazer!
4 tomates sem pele e sem sementes – ainda chegará o dia que eles nascerão pelados e sem semente! Isso aqui dá um trabalho!
100ml de azeite de oliva
100ml de vinho branco seco
2 folhas de louro, 1 ramo de tomilho
Sal e pimenta do reino moída na hora a gosto

Coloque tudo isso na sua bancada de trabalho e vamos começar a brincadeira!

Preparando o nhoque:
Cozinhe as batatas com a casca pra não aumentar a umidade dela. Tire a casa, amasse. Deixe esfriar. Não pode usar ela morna, senão o gluten faz a festa! Deixa esfriar.
Tempere a batata com sal e noz moscada, jogue o queijo ralado e o ovo. Misture com colher. Não é pão… não use as mãos para sovar.
Vá colocando o trigo, devagarinho… mistura com carinho com a colher até ficar no ponto que você poderá fazer rolinhos na mesa.
Polvilhe a mesa, faça rolinhos e corte com faca sem serra. Polvilhe com trigo.
Ferva água, não precisa colocar sal porque já tem no nhoque. Coloque de pouco em pouco. Quando subir, conte 30 segundos e jogue dentro de uma tigela com água gelada para dar um choque térmico. Daí coloque num refratário e jogue um fio de azeite.
Faça isso na hora de servir que fica muito melhor!

Fazendo o molho:
Refogadinho de alho e cebola, junte o bacon picadinho e deixe dourar. Depois junto a linguiça que você deverá ter tirado a pele e espremido com garfo para ficar um tipo de linguiça moída, sabe? Junte o tomilho, alecrim e louro. Deixa fritar bem.
Agora coloque o vinho e espere evaporar. Abaixe o fogo, coloque os tomates que você cortou em cubos, o molho de tomate e deixe cozinhar por 30 min.
Veja se precisa de sal, as vezes basta com o tempero do bacon e da linguiça. Mas coloca a pimentinha!

Palmas para a Chef Alessandra Silveira, lindinha professora e coordenadora da Escola de Gastronomia Carême, em Joinville/SC, que me ensinou a fazer o nhoque. Já o molho, gratidão infinita ao Chef Rodrigo, professor do Senac e da Carême também!

Viu como da trabalho? Por isso eu agradeço muito, beijo e abraço bem apertado quem faz nhoque pra mim!

 

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