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Memórias soltas em memória da minha avó

Esse texto foi escrito por minha irmã Michelle Thomé, baseado em suas memórias e depoimentos das irmãs e primos, lido na homenagem de despedida da minha avó René Dalazem Thomé, antes do seu enterro.

 

 

Caçador,. 28/10/2018.

 

Chegou a hora de nos despedirmos de parte de nós. Falo por seis netos emocionados em meio às lembranças afetuosas da nossa avó. Este texto não tem nenhum outro intuito a não ser falar de memórias que farão com que minha avó Rene viva para sempre dentro de nós.

Quando éramos criança, nos sábados à noite, todos os netos eram recebidos para jantar com sopa. A melhor sopa de pacote Knorr do mundo era feita na casa de madeira na rua Carlos Sperança, pela Dona Rene.

Uma parte dos netos dormia no sofá da sala e outra parte em outra sala. Era uma festa! Quando a vó virava as costas, brincávamos de pular no sofá. No domingo, o almoço tinha frango, arroz de forno e macarrão feito por ela com aquele cheiro bom se espalhava pela casa.

Se tinha alguma fritura, era na banha de porco. Nada de óleo refinado.

Nossos domingos eram de encontro entre primos e tios ao redor da comida da vó. Tinha também os bombons na geladeira do vô Nilo e os goles de cerveja preta que ele dava para as crianças capotarem após o almoço.

Um dos programas da tarde de domingo era sair para comprar galinhas e pintinhos, que voltavam agitados dentro do carro. O vô adorava criar os bichinhos nos fundos do quintal. E a vó, conforme a demanda, matava as galinhas para nossos almoços longe dos olhos do vô.

Tínhamos muitas atividades familiares. Ela guardava as relíquias pessoais em uma cristaleira na sala e éramos proibidos de tocar – o que, justamente por conta da proibição, não obedecíamos. Pensem na emoção de conseguir chegar até a cristaleira e pegar o bibelô do gauchinho tomando chimarrão.

Éramos assistentes ao redor dos tachos de frutas, preparadas para chimia e compota. Ajudávamos no corte do macarrão e do grôstoli. Brincávamos com os cachorros, que ela deixava que escolhêssemos os nomes. Vitor, o mais corajoso entre os primos, se divertia arrancando as flores que ela plantava nos fundos da casa. Sujos de tanta folia, tomávamos banho de mangueira no tanque.

A vó era vaidosa. Cuidava para manter o peso (o que era bem difícil, pois era viciada em doces), se importava com o que vestia, preparava com frequência salmora para os pés. Em casa, muitas vezes ficava de bobes no cabelo. Carregava esmalte e acetona pela casa para retocar as unhas.

A vó sabia lidar com dinheiro. Sua habilidade administrativa fez com que ela se elegesse como síndica algumas vezes nos prédios onde tem apartamento em Caçador e Itapema.

Na Impressora Universal, era a responsável por visitar os clientes mensalmente para fazer a cobrança. E a gente ia junto naquilo que parecia uma aventura. Ela dirigindo, a gente no banco de trás gritando e abanando toalha ou papel higiênico pela janela, numa época em que não existia cinto de segurança nem cadeirinha de criança. Não foi fácil quando ela decidiu parar de dirigir.

A vó colecionava botões, gostava de dançar com o vô, era viciada em encerar o chão com a cera vermelha e varrer as folhas do quintal. Foi telespectadora assídua da cozinha maravilhosa da Ofélia, doida por caça-palavras e leitora dos romances Bianca, Sabrina e etc. Descobriu-se turista após a morte do vô e viajou para muitos lugares com as amigas e grupos da terceira idade.

A vó nasceu Rene Dallazem, gaúcha, em Muçum, Encantado, na época Montenegro, onde em 23 de janeiro de 1927, terceira filha do Antonio e da Jacomina e irmã da Zilda, da Zaira, da Ilda, da Elici, da Alzira e do Eleutério.

Em 1941 ela conheceu o vô Nilo. Ela tinha 15 anos de idade. Em 1943 veio o noivado. Eles casaram em 4 de novembro de 1944 em uma antiga capelinha, em Videira; ele com 26 anos e ela aos 17 anos. A lua-de-mel foi uma viagem de trem noturno de Videira a Caçador.

Ela foi companheira do vô na abertura da “Casa Comercial Secos e Molhados – Tintas, Louças, Miudezas e Armarinhos em Geral” na Rua Carlos Sperança. Foi ali que, na segunda metade da década de 40, todos os filhos nasceram – primeiro o Nelcindo (o Cindo), depois a Lenita (a Tita) e finalmente Nilson (o Nitio).

Foi ali que choraram a morte do tio Cindo e que receberam com alegria a nora Valdecy, o genro Paulo e todos os netos. Mais tarde, já com idade, se mudaram para o apartamento onde ela morou até agora.

O vô nunca se acostumou direito, mas a vó, forte e resiliente, fez um novo lar, onde recebeu feliz os bisnetos, chorou a partida do marido, de mais um filho e, no início deste ano, do genro.

E agora é a nossa vez de te ver partindo, vó querida. Você viverá em nós para sempre. Somos o seu legado. Para sempre. Obrigada a todos que puderam estar aqui para serem testemunha deste momento de amor e gratidão pela vida da dona Rene entre nós.

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