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Como preservar as memórias que importam

Sentei-me no chão e comecei a tirar as coisas que estavam embaixo da pia, na casa da minha falecida avó. Fazia 4 dias da sua partida. Essa foi a primeira vez que entramos no apartamento depois de sua passagem. Estávamos eu e a Tita – tia que há muito tempo vivia mais próxima da vó Renê.

Velhas panelinhas de tampas vermelhas, potes de alumínio onde ela guardava banha, arroz, feijão – tudo identificado por uma fita com a inscrição do que vinha ali dentro. Fui tirando tudo debaixo da pia, olhando com calma e colocando ao meu lado, ali no chão.

Eram vários itens que, pra quem é mais desapegado, não significaria muita coisa. Mas eu, feliz ou infelizmente, faço parte da categoria de ser humano apegado às memórias. Se algo me leva de volta a algum lugar do passado, se me provoca aquele quentinho no peito ou me causa brilho de saudade nos olhos, pra mim tem muito valor.

Fui para os outros armários da cozinha. Encontrei um vedante de garrafa de refrigerante –  aqueles que a gente usava para não deixar o refri perder o gás depois de aberto, lembra? Minha avó ainda tinha um desses.

Sabe-se lá porquê, ela não tinha jogado fora. Talvez porque, assim como eu, vó Renê não conseguia se desapegar de momentos do passado que ainda morava em objetos. Talvez o velho prendedor de gás já não prendesse mais gás nenhum, mas mantinha preso a ele memórias que para minha vó ainda eram tão importantes quanto o gás do guaraná de garrafa.

Dentro de um outro armário, uma tesoura de cortar frango me surpreendeu. Acho que eu nem lembrava que aquilo existia.  Ao encontrar a tesoura, lembrei que um dia fomos nós os abatedores dos animais. Matávamos no quintal, depenávamos na cozinha, limpávamos e cozinhávamos. Houve um tempo em que a indústria da carne ainda não nos oferecia tanta “comodidade”.

Minha avó viveu num tempo onde a conexão com alimento ainda existia de maneira muito forte. Animais não vinham com código de barras, eles cresciam perto de nós. Alimentos processados eram processados dentro de casa, por nossas próprias mãos. Legumes e verduras vinham da quitanda ou da horta. Agrotóxico ainda não causava polêmica.

Respeitando a hierarquia familiar, pedi permissão à Tita para manter aquela tesoura numa caixa e depois consultar os primos sobre o que fazer com todos objetos.

Achei a pequena tábua onde o vô cortava queijo pra gente; vermelha de um lado e amarela do outro. Achei a irmã mais velha da pequena tábua – uma tábua maior, vermelha e azul. Curioso como as cores e texturas de uma tábua de plástico me fizeram lembrar do som da voz, do cheiro, do humor do meu avô.

Que afortunados somos nós, humanos, por poder reviver momentos a partir de pequenos estímulos, como o de uma pequena tábua de cortar queijo, do vermelho de uma tampa de panela velha ou de uma tesoura meio enferrujada.

Naquele dia, já de tardinha, ao deixar a casa da vó Renê, mandei uma mensagem para os primos dizendo que eu desejava ficar com muitos daqueles objetos. Pedi a permissão de todos e prometi cuidar respeitosamente de tudo.

Uma panela de pressão de 3 litros, pequena e muito fofa, uma chaleira elétrica, panelinhas coloridas, latas de alumínio com fitinhas. Objetos como estes serão usados por mim ou servirão de decoração no Espaço Farinho – um espaço que em breve fará parte da minha VidaComFarinha.

Nunca falei sobre o Espaço Farinho aqui porque ele ainda está na fase de prototipação. Será um espaço para compartilhar conhecimento, histórias, receitas e tudo que for relacionado à comida e que sirva de tempero para a vida. Como as boas memórias.

Quando ganhar vida, o Espaço Farinho já nascerá cheio de carinho,  afetividade e amor. Muito do amor da vó Renê estará presente neste espaço. Presente em forma de memória afetiva, como sempre.

Obrigada vó, por tudo que fez por nossa família! Suas  memórias estarão preservadas e seguirão em família!

Um beijo, da Rafa

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